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A TV só mostra as negras como promíscuas, serviçais ou barraqueiras

Tasha e Tracie Okereke

17/05/2019 04h00

Pelas imagens que sobreviveram aos milênios e pelos conhecimentos científicos, os egípcios estavam bem longe de ser brancos, mas nas novelas da Record, assim como em muitos filmes, os personagens poderosos são alvos como a neve. De repente, surge a primeira novela bíblica da TV brasileira com uma protagonista negra, Lidi Lisboa.

Parecia que o canal tinha sido atingido por uma onda de bom senso. No cartaz de divulgação, uma mulher linda, negra e imponente com muito ouro na cabeça. Seria Makeda, a rainha de Sabá? Na verdade, a história é a de Jezabel, que foi uma princesa fenícia que cultuava Baal e casou com Acabe, o rei de Israel, que aceitava que ela seguisse a religião dela.

Pagã, ela fez que muitas pessoas adorassem Baal. Por isso, foi demonizada e considerada poderosa, mas extremamente "má". Era sinônimo de promiscuidade e poder, na verdade tão imponente quanto qualquer monarca daquela época. Sendo assim, tal fama é injusta, se não é dada a outros reis que hoje somente são lembrados como poderosos.

Jezabel sabia o que queria e ia atrás. Persuadia o rei Acabe, mandava cabeças rolarem, era vaso ruim de quebrar. Foi muito confrontada, até que se organizou uma revolta contra ela em que mataram seu filho. Ela teve um fim trágico: foi jogada da janela de seu palácio. Por sua história, na cultura popular seu nome está associado a imagem de uma mulher sedutora e sem escrúpulos.

Patricia Hill Collins organiza na obra "The Black Feminist" o conceito de "imagens de controle", que resumidamente são padrões eurocêntricos limitantes impostos a algumas raças, etnias, gêneros ou grupos sociais que variam de cultura para cultura. Por exemplo, ela analisa quatro imagens de controle impostas as mulheres negras no contexto ocidental: Mula, Black Lady, Mommy e Jezabel.

Mula é a mulher trabalhadora compulsiva, aquela que trabalha excessivamente e nunca reclama. Black Lady é a mulher que abre a mão da vontade e conceito de uma família pensando em sucesso profissional e grandes posições no trabalho. Mommy é a empregada doméstica dedicada aos patrões brancos, para garantir o conforto deles. Angry Black Woman nada mais é do que o estereotipo da mulher negra brava e agressiva. E a Jezabel é a promíscua, a destruidora de lares, a insaciável que exala sexo.

Patricia Hill Collins

O termo Jezabel é usado para se referir a mulheres que não "prestam" e é uma das mais simbólicas imagens de controle impostas para mulheres negras desde a infância: a hipersexualização. Nos EUA, Jezabel foi um termo usado na época da escravidão para descrever a filha fruto da relação de um branco com uma escravizada. Ou seja, a Jezabel dos EUA é a mulata daqui. O sociólogo Gilberto Freyre romantiza em suas obras as relações entre os sinhôs e as escravas. O escritor Jorge Amado sempre se referiu poeticamente às mulheres negras como "ardentes". Esse é o nosso país poeticamente racista. Nesse cenário, a expressão "cor do pecado" é de uma conveniência perfeita.

Estupradas e escravizadas, as negras eram usadas para a manutenção da castidade das brancas. O estereotipo que ficou foi a da máquina sexual, enquanto historicamente a imagem da branca é associada a pureza. Até hoje é assim. Nos tweets que falam da beleza das divas pop, as brancas ganham close, enquanto Iza só aparece de biquíni. A série " O Sexo e as Negas", exibida em 2014 na TV Globo, também apresentava a mulher negra como objeto sexual ou barraqueira, como a malvada e destruidora de lares Jezabel. Antigamente, nem nas propagandas as meninas negras eram poupadas da desumanização e da hipersexualização. Confira na caricatura abaixo:

Nas imagens abaixo, cinzeiros mostram a sensualidade exagerada das mulheres pretas:

No Brasil, o termo "disputar a nega" em jogos, do dominó ao futebol, relembra que as mulheres pretas serviram para desempatar o desempenho dos homens.

A TV brasileira tem a infelicidade de ter no humor vários personagens que têm em si todos os estereótipos racistas possíveis.

Acima, dois bons exemplos da imagem de controle ao estilo "Mommy", no filme "E o vento levou" e no desenho "Tom & Jerry".

Outro legado da colonização é o estereotipo da índia safada. O colonizador estuprou aos montes as indígenas, e hoje elas são retratadas como as promíscuas.

No texto "A Lacradora: como imagens de controle interferem na presença de mulheres negras na esfera pública", Winnie Bueno fala de um contexto brasileiro, citando "a lacradora" como síntese dessas reproduções infelizes de estereótipos.

É necessária a presença de negros, indígenas e outros grupos marginalizados na mídia, mas não de qualquer jeito. É necessária, mas para além das leituras racistas e estereotipadas, afinal, essas reproduções são "heranças" que tem o poder de perpetuar esse ecossistema que desumaniza e mata cada vez mais corpos. Seria muito legal, além de Jezabel, ver nas novelas Makeda, Zipporah, Simão de Cirene e tantos outros personagens não-brancos da Bíblia. Aliás, vai ser tudo de bom no dia em que houver uma novela de tanto sucesso como as da TV Record com um Jesus mais real, mais parecido com o que é cientificamente comprovado, longe de ser loiro dos quadros e filmes. Fica a dica!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre as autoras

“QUEREMOS FAZER AS PESSOAS TEREM A CONSCIÊNCIA DE QUE ELAS PODEM FAZER TUDO”Tasha (@tashaokereke) e Tracie Okereke (@tracieokereke), 23, paulistanas, gêmeas. São DJs, estilistas, diretoras de arte, produtoras culturais, blogueiras e ativistas periféricas. Trabalham em prol da autonomia e da autoestima do jovem favelado. À frente do projeto Expensive $hit suas armas são a moda, a música, a arte, a história, a cultura, o conhecimento e a internet. Dividem e espalham informação para os seus, abordando assuntos urgentes. Site: tashaetracie.com.br

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Neste espaço vamos ter todo tipo de reflexão que topar com a nossa humanidade — de acordo com a perspectiva das autoras, é claro.